Em 1997 estreava Baile perfumado. Fruto do esforço de uma geração, o filme transpira uma vontade de fazer cinema que, colocada em perspectiva, pode ser entendida como uma vocação. Havia como suspeitar, mas não exatamente saber, que nascia ali uma nova e longeva fase para o cinema pernambucano, elevado de coadjuvante ao posto de um dos principais representantes da cultura do estado.

Apenas nos dez anos deste início de século, foram realizados mais filmes do que nos cem anos anteriores. Se até pouco antes eles nasciam de uma urgência criativa capaz de superar as mais frágeis condições, hoje há equipamentos, editais exclusivos para cinema e cursos técnicos e de nível superior. Eventosde exibição, formação e reflexão se multiplicam na capital e interior.

O atual panorama remonta a uma série de acontecimentos que, no início do século 20, deram início à atividade cinematográfica no estado. Como em outros grandes centros, as exibições ao ar livre levaram aos primeiros filmes, os "naturaes". Em 1916, surge o Pernambuco-jornal, com noticias e atualidades. Em 1918, outro grande momento: chegava ao Recife o italiano Ugo Falangola, que trouxe consigo uma câmera da Inglaterra e abriu a Pernambuco-film, fundada no bairro de São José ao lado de seu conterrâneo, J.Cambiere.

Naquele tempo, predominavamos filmes de cavação, rodados por encomenda de políticos e coronéis, como o então governador Sérgio Loreto. Recife estava em crise, há anos havia perdido o posto de capital econômica do país. Daí a evocação desenvolvimentista trazida pelo cinema, principal mídia da época. A construção dos armazéns, o bonde e o movimento portuário estavam entre os temas mais recorrentes de filmes como Recife no centenário da Confederação do Equador (1924) e Veneza Americana (1925).

A criação da Aurora-Film pelo ourives Edson Chagas e pelo gravador Gentil Roiz, apoiados pelo estudante de engenharia Ary Severo, inicia a produção ficcional que ficaria nacionalmente conhecida como Ciclo do Recife. Ao lado de Cataguases, Barbacena, Campinas, Manaus, Porto Alegre e Pelotas, quase 50 filmes realizados por doze empresas de Pernambuco desafiavam a hegemonia artístico-econômica do eixo Rio-São Paulo.

Era o primeiro pólo de produção do Recife, inaugurado com o longa Retribuição, que em 1924 fez grande sucesso. Entre altos e baixos, o Ciclo do Recife terminou precocemente em 1930, por conflitos internos e dificuldades de gerar bilheteria – poucos títulos, como A filha do advogado (1927) e Aitaré da Praia (1925) conseguiram chegar ao Rio de Janeiro. Isso, mais o advento do cinema sonoro, inviabilizaram projetos como Odisseia de uma vida e Audácia de um ciúme, que nunca foram concluídos.

Apesar de a história do cinema pernambucano ser marcada por ciclos, filmes nunca deixaram de ser realizados no estado. Em 1942, Newton Paiva e Firmo Neto rodaram o primeiro filme sonoro de Pernambuco, o longa O coelho sai; nos anos seguintes, Neto seria o responsável por dirigir os principais documentários sobre o Recife. Em 1952, Alberto Cavalcanti chega à cidade para filmar O canto do mar. Foi uma grande produção, com elenco 100% local e roteiro escrito com o dramaturgo Hermilo Borba Filho.
 
Nessa mesma época, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais iniciou o registro antropológico e cultural no Nordeste, o que culminou na realização de Aruanda, de Linduarte Noronha e A cabra na região semiárida, de Rucker Vieira, em 1960. Dois filmes essenciais na gênese do moderno documentário brasileiro, que além de tudo, serviram de influência para Glauber Rocha e seu fotógrafo, Dib Lutfi, desenvolver a estética e identidade do Cinema Novo.

A marca autoral, outra forte característica desde o início da produção pernambucana, pode ser observada com mais evidência a partir do Ciclo do Super 8. No início dos anos 1970, tendo em Fernando Spencer sua "ponta-de-lança" (ele era o único com experiência na direção de filmes), um grupo formado por estudantes e artistas se valeram de facilidades técnicas e do movimento contra cultural para atingir uma liberdade criativa inédita até então. Entre eles estavam Geneton Moraes Neto, Flávio Rodrigues, Geraldo Pinho, Celso Marconi,Lula Gonzaga, Osman Godoy, Kátia Mesel, Amin Stepple, Jomard Muniz de Brito e Paulo Cunha.

Em 1985, a geração marcada pelo vídeo e a linguagem televisiva vinha à tona com o grupo Van-retrô, fundado por Paulo Caldas, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Adelina Pontual e Samuel Holanda. Caldas, o mais desenvolto, convidou Lírio para ser assistente em Bandido da sétima luz, sobre Fernando Spencer. Com Cláudio Assis, que estudava economia, fizeram o roteiro de Biodegradável, que nunca foi filmado. Logo depois Cláudio ganhou um prêmio para fazer Henrique e convidou o grupo todo para trabalhar. Se inicialmente o fechamento da Embrafilme abalou algumas produções no começo dos anos 1990, o signo ensolarado do manguebeat foi decisivo para que o cinema pernambucano se reinventasse em novas inspirações.

Isso se tornava visível em uma série de curtas-metragens, entre eles, Cachaça (Adelina Pontual), Maracatu maracatus (Marcelo Gomes), Recife de dentro pra fora (Kátia Mesel), That`s a lero-lero (Lírio Ferreira e Amin Stepple), Simião Martiniano, o camelô do cinema (Clara Angélica e Hilton Lacerda), Texas Hotel (Cláudio Assis) e Clandestina felicidade (Beto Normal e Marcelo Gomes). Festejado em todo o país, Baile perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, surge como a coroação de um espírito renovador que contagiava o inclusive cinema nacional, que um ano antes havia elegido Carlota Joaquina, de Carla Camuratti, como o símbolo da retomada da produção brasileira. Primeiro longa-metragem realizado no estado em quase duas décadas, Baile simboliza mais do que uma retomada, pois inaugura uma fase sem precedentes para o cinema pernambucano.

Imediatamente desponta uma nova geração de artistas: Camilo Cavalcante, Leo Falcão, Eric Laurence e os coletivos de produção: Símio Filmes, Trincheira, Telephone Colorido, entre tantos outros. Ao privilegiar os costumes urbanos os filmes do Ciclo do Recife exaltavam a capital como um lugar moderno e desenvolvido, uma cidade conectada às atualidades europeias.
 
Quase cem anos depois, temos o contrário: a prosperidade econômica de Pernambuco permite ao estado investir em um cinema sem compromisso político ou ideológico, capaz inclusive de criticar o Recife, seus rumos e destinos, como o desordenamento e a conturbada vida urbana. Uma série de produções vem apontando nesta direção, entre eles, os premiados Amarelo Manga (Claudio Assis), Recife frio (Kleber Mendonça Filho), Praça Walt Disney (Renata Pinheiro e Sergio Oliveira) e o autogestivo projetotorresgemeas.

A poesia, arte cara aos recifenses, tem sido presente em filmes como Soneto do desmantelo blue (Claudio Assis), Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes) e os recentes Poeta urbano (Antônio Carrilho) e Febre do rato (Cláudio Assis). Este último abre uma sequência de novos longas que devem estrear ao longo de 2012: O som ao redor (Kleber Mendonça), Era uma vez Verônica (Marcelo Gomes),Tatuagem (Hilton Lacerda) e País do Desejo (Paulo Caldas). Há quem questione o uso do termo "cinema pernambucano" para nomear esta produção, por conta de possíveis evocações ufanistas, reducionistas ou tacanhas. Não é o caso.

Estamos falando de uma produção vigorosa, marcada pela multiplicidade de olhares e identidades, aberta para o mundo. De um ambiente de pujança e expansão, que não permite rótulos ou generalizações. Nunca tantos filmes foram realizados, exibidos e reconhecidos. Os melhores têm em comum o destemor em expandir fronteiras; propor discussões; experimentar linguagem.

O filósofo alemão Walter Benjamin afirma que a função social do cinema é a de desvelar ao público processos e engrenagens do mundo moderno, convidá-lo a refletir sobre o agora. Eis a maior riqueza do cinema feito em Pernambuco.

Que este seja apenas o começo.

André Dib é jornalista, pesquisador e crítico de cinema.
Um homem parte do Recife ao deserto do Atacama, no Chile, numa jornada em memória ao amigo. Uma trupe de teatro, na época da ditadura, seduz um jovem militar para participar de suas peças – mais ideológicas do que teatrais. O circo Netuno passa por Fernando de Noronha. Um poeta plana por paisagens em preto e branco do rio Capibaribe. Uma mulher tem um relacionamento diferente com sua máquina de lavar. Um casal faz amor num caminhão carregado de côco verde: são retratos diversos do cinema pernambucano.

Não existe um cinema pernambucano – existe uma história, uma evolução. As vozes, no entanto, são múltiplas. O cinema pernambucano é rural e é urbano, é mar e é seco – um dos filmes que melhor traduz esse contraste, por exemplo, é “História da Eternidade”, de Camilo Cavalcanti, no qual o mar é sempre uma presença, apesar de ausente. Camilo Cavalcanti faz parte do grupo de diretores mais atuantes nos últimos dez anos, assim como os diretores das cenas citadas no início – Eric Laurence, Hilton Lacerda, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, entre outros.

Se, em 1997, a produção local conquistou novos ânimos – a partir da estreia de Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas – dez anos depois, o polo pernambucano de cinema realmente se firmou, a partir deste impulso. A persistência e a luta por um cinema interessante, autêntico, no entanto, é muito mais antiga. A Rua da Imperatriz recebeu a primeira projeção do Recife, em animatógrafo. Em 1910, já eram dois cinemas, mas foi só em 1918 que Ugo Falangola, italiano, trouxe uma câmera da Inglaterra e abriu a Pernambuco-Film. Em fenômeno semelhante aos primeiros registros cinematográficos ao redor do mundo, a produção inicial documentava e exaltava o trabalho humano, trazendo novos ânimos para uma cidade que estava em crise. Estes filmes de cavação eram, em sua maioria, encomendados por políticos, como o governador Sérgio Loreto. É a partir da criação de outra produtora, a Aurora-Film, que contava com Ary Severo, que o Ciclo do Recife realmente desponta.

Foram quase 50 filmes, com destaque para Aitaré da Praia (1925) e A Filha do Advogado (1927), que foram exibidos em salas comerciais do Rio de Janeiro – uma meta difícil para outras produções da época. Com a chegada do cinema sonoro, Pernambuco acabou ficando um pouco atrasado. A primeira tentativa de filme sonorizado foi de Jota Soares, com No Cenário da Vida, em 1930. Somente 12 anos depois, a tentativa foi concretizada por Newton Paiva e Firmo Neto, numa produção da Meridional Filmes S.A., O Coelho Sai. É uma pena, no entanto, que não exista mais nada relacionado ao filme – a última cópia foi perdida num incêndio. A atriz Geninha da Rosa Borges, porém, que atuou no filme muito jovem, relata que numa das cenas, ela recebia uma caixa do avô, e dela saiam todos os seus desejos.

Mais tarde, Rucker Vieira realizou A cabra na região semiárida, com o apoio do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em 1960 – obra que acabou influenciando indiretamente na identidade do Cinema Novo, através da inspiração que gerou ao cineasta Glauber Rocha, juntamente a Aruanda, de Linduarte Noronha. Atualmente, o nome de Rucker Vieira é o título do edital de incentivo a produções documentais, através da Fundação Joaquim Nabuco.

É a partir da década de 70 que o cinema pernambucano deixa mais claro a sua potência para obras autorais. Fernando Spencer afirmava que ele e os colegas faziam cinema nesta época porque gostavam: “não tinha dinheiro, a gente fazia para o povo achar bom. E o povo achava bom”. Ele se referia ao Ciclo do Super-8, que contou também com Jomard Muniz de Brito, Geneton Moraes Neto, Flávio Rodrigues, Geraldo Pinho, Celso Marconi, Lula Gonzaga, Osman Godoy, Kátia Mesel, Amin Stepple e Paulo Cunha.

O Ciclo do Super-8 é o primeiro momento no qual o cinema pernambucano fica mais fácil de ser executado. Com equipamento portátil e acessível, a criatividade destes cineastas pôde ser explorada de uma nova maneira. É um paralelo muito claro com a situação desta década de 2010 – cada vez mais pessoas têm acesso a câmeras de qualidade, por um preço barato, e de tamanhos super-portáteis. Em 2015, por exemplo, foi lançado Santa Mônica, primeiro longa-metragem do jovem cineasta recifense Felipe André, inteiramente filmado em câmera de celular.

Na década de 80, cineastas como Paulo Caldas, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Hilton Lacerda, Adelina Pontual, entre outros, começaram uma relação de amizade e também profissional, que acabou por desenhar muito do panorama atual do nosso cinema. Na década de 90, aproximaram-se do manguebeat de várias formas, às vezes fazendo videoclipes para as bandas, em outras, tratando da temática em suas produções, ou convidando grupos como Nação Zumbi para fazer a trilha sonora, como é o caso de Baile Perfumado.

Então, sim, o Baile Perfumado é uma obra que carrega toda essa passagem de tempo, toda a evolução de um ponto de vista, mas é também o primeiro passo para a profissionalização do cinema em Pernambuco. Agora, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Cláudio Assis e colegas continuam produzindo e são diretores consagrados, mas o espaço tem se aberto para novas visões, outros tipos de experimentação estética, linguística e até de modos de produção ou distribuição.

Temos Tião, que dirigiu Muro, curta-metragem que ganhou o prêmio “Novo Olhar” no Festival de Cannes, em 2008. No mesmo ano, a dupla Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro recebia o prêmio da 32 a . Mostra de Cinema Internacional em São Paulo, com o documentário KFZ 1348. Os dois dirigiram várias outras obras sozinhos. Destacam-se Brasil S/A, de Pedroso, vencedor de vários prêmios, incluindo melhor direção, no Festival de Brasília, em 2014; e Boi Neon, de Mascaro, que já foi premiado em Veneza e também no Festival de Marrakesh – no qual Gabriel Mascaro recebeu o prêmio das mãos de Francis Ford Coppola, em 2015.

A mulher também tem conquistado seu espaço, definitivamente, em nosso cinema. Em grande parte das produções locais, existem mais mulheres do que homens na equipe. Porém, é crescente o número de mulheres diretoras recebendo destaque, a exemplo de Renata Pinheiro, na direção de longas como Amor, Plástico e Barulho; Nara Normande, com os curtas Dia Estrelado e Sem Coração (co-dirigido por Tião); Milena Times, com Au Revoir; e Tuca Siqueira, que, no fim de 2015, encerrou as gravações de seu primeiro longa-metragem, Amores de Chumbo.
A pluralidade é crescente, principalmente com a facilitação do acesso a câmeras. Com a propagação de câmeras do tipo DSLR, tornou-se possível realizar todo de tipo de audiovisual a um custo muito mais baixo.

O formato digital, em si, já traz um custo menor, por não envolver o negativo e todo o processo de revelação. Essa facilidade coincidiu ainda com a tão esperada chegada dos cursos superiores de cinema no estado. Atualmente, o grande Recife conta com o Bacharelado em Cinema e Audiovisual na UFPE e também na AESO (Olinda).

Existem também grupos que vivenciam o cinema de uma forma diferenciada. O coletivo Surto&Deslumbramento composto por André Antônio, Chico Lacerda, Fábio Ramalho e Rodrigo Almeida, surgiu do encontro acadêmico em cursos de Comunicação, e tem uma identidade clara – seus filmes parecem se construir de maneira viva, durante a própria produção, que é sempre simples e muito pessoal. Todos os curtas estão disponíveis gratuitamente online, plataforma de distribuição bem escolhida pelo grupo. Recentemente, lançaram o primeiro longa do coletivo, A Seita.

Nesta onda de relação com a internet, alguns jovens críticos de blogs, como Felipe André, Filipe Marcena e César Castanha, conseguiram realizar seus primeiros projetos através de financiamentos coletivos, os crowdfundings – método de financiamento que conta com colaborações de interessados em ver o filme, em troca de recompensas, e que tem crescido cada vez mais. Talvez estes jovens se inspirem em Kleber Mendonça Filho. Sendo um dos nomes mais fortes na crítica local de cinema, quando Kleber resolveu filmar o seu primeiro longa, o sucesso foi total. O Som ao Redor foi aclamadíssimo pela crítica nacional e internacional, sendo escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o país na corrida pelo Oscar, em 2013. Quando exibido na televisão aberta, o filme se tornou tren topic no Twitter durante a exibição.

Nas produções locais, jovens cineastas se unem aos mais experientes e existem verdadeiras trocas de conhecimento, de ideias, de paixão pelo cinema. É um cinema apaixonado, no fim das contas. Algumas produções são amadas – e outras, odiadas – mas nenhuma delas passa em branco. O cinema pernambucano incentiva discussões, debate, conhecimento. Mesmo com o aumento de produções, e apesar de o termo às vezes soar generalista, o cinema pernambucano continua tendo um toque especial.

O segredo não está na narrativa, nos personagens, ou no cenário. Não está num cineasta sozinho. Está neste hábito de ir além, de experimentar, de desenhar a realidade que vai além do óbvio. Muitas vezes, é cinema silêncio, contemplação. Noutras, eufórico, mas o cinema pernambucano é sempre vivo – e isso vale para os filmes de menores ou maiores orçamentos, ficção ou documentais. Talvez seja esta o segredo

– a vida, a insistência. O cinema pernambucano é produzido num núcleo longe da principal indústria audiovisual do país. O país, no geral, também não tem uma indústria cinematográfica comparável à de Hollywood. Quando nos referimos ao cinema, então, somos periferia da periferia

– mas somos vivos. O cinema pernambucano respira, e é por isto que ele permanece, é forte, e agora está aqui, neste site, disponível em sua pluralidade, para você.

* Annyela Rocha é jornalista e cineasta
(entrevistas com Geninha da Rosa Borges e Fernando Spencer realizadas em 2011)